Coluna publicada Jornal O Vale em 11 julho 2026
Você escolheria essa peça se não soubesse a marca?
Esses dias vive uma situação que foi um mix de lisonjeiro e interessante. Estava na Renner, olhando algumas peças com toda a calma do mundo, tinha um presente para trocar e que de verdade tinha adorado, mas tinha ficado grande. Eis que uma mulher se aproximou de mim sorrindo e disse: “Fran Galvão na Renner?! Vou te seguir para ver o que você vai comprar, porque quero comprar igual.”
Confesso que ri. Fiquei lisonjeada pelo carinho e pela confiança. Afinal, quando alguém acredita no seu olhar a esse ponto, é porque o seu trabalho realmente comunica alguma coisa.
Mas, assim que o momento passou, um pensamento ficou martelando na minha cabeça. Por que ainda existe a ideia de que uma consultora de imagem ou alguém que trabalha com moda, precisa consumir apenas em determinadas lojas? Um determinado padrão? Mais do que isso: por que ainda associamos estilo ao lugar onde compramos, e não à forma como escolhemos?
Talvez essa seja uma das maiores confusões que fazemos quando falamos sobre moda. Estilo não é etiqueta de preço – é repertório. É saber enxergar potencial onde muita gente passa sem perceber. É entender caimento, modelagem, proporção, tecido, cores e acabamento. É conhecer o próprio corpo, a própria personalidade. É saber qual imagem deseja transmitir quando entra em uma reunião, em um almoço de família ou simplesmente quando sai para tomar um café.
Uma peça não se torna elegante porque foi comprada em uma loja mais cara. Ela se torna interessante quando faz sentido dentro da história de quem a veste. E aqui existe uma diferença enorme entre consumir e saber comprar.
Você pode entrar em uma loja sofisticada e sair com cinco peças que jamais usará. Pode entrar em uma loja de departamento e encontrar exatamente aquilo que estava faltando no seu guarda-roupa.
O endereço da loja nunca foi o problema – o problema é comprar sem critério, sem intenção, sem conhecer a si mesma.
É verdade que quem trabalha com imagem aprende a desenvolver um olhar treinado e esse olhar vai muito além da roupa. É preciso identificar qualidade, perceber possibilidades, imaginar combinações. Enxerga como uma peça poderá ser usada de cinco maneiras diferentes.
Enquanto algumas pessoas olham uma arara cheia de roupas, outras conseguem visualizar um guarda-roupa inteiro sendo construído. Confesso que esse olhar não nasce pronto, é preciso tempo, desenvolvimento, repertório (sempre ele).
E repertório se constrói observando, experimentando, acertando e errando, pesquisando, visitando lojas diferentes, conhecendo marcas diferentes…porque inspiração também mora na diversidade.
Eu nunca estabeleci barreiras sobre onde comprar. Assim como não estabeleço barreiras sobre onde buscar referências. Gosto de entrar em lojas populares, em lojas premium, em brechós, em pequenas marcas autorais e até em mercados de antiguidades.
Cada lugar me ensina alguma coisa. Cada coleção conta uma história. Cada vitrine apresenta uma solução diferente.
Quem acredita que elegância depende exclusivamente do valor da etiqueta acaba limitando a própria criatividade – e a criatividade é um dos ingredientes mais importantes de um bom estilo.
Aliás, existe uma pergunta que faço com frequência para minhas clientes: “Se eu cortar a etiqueta dessa roupa, você saberia dizer quanto ela custou?”
Na maioria das vezes, a resposta é não, porque aquilo que realmente chama atenção não é o preço, é a maneira como a peça foi escolhida – e vou além, a maneira que a peça é usada. Como ela conversa com o restante do guarda-roupa, como ela valoriza quem está vestindo.
No fim das contas, aquela abordagem na Renner me deixou um presente. Ela me lembrou que as pessoas, muitas vezes, imaginam que estilo está escondido em um lugar específico. Mas isso não é verdade – nunca foi. Estilo mora nas escolhas, no autoconhecimento, na intenção, no olhar que você desenvolve ao longo da vida.
E talvez seja justamente isso que eu gostaria que você levasse desta leitura. Na próxima vez que entrar em qualquer loja, não pergunte apenas se aquela peça está na moda, pergunte se ela conversa com você, se te representa, se faz sentido a sua rotina e dia a dia.
Porque quando existe clareza sobre a imagem que você deseja construir, a loja ou marca deixa de ser protagonista – quem passa a fazer a diferença é você.
PS: Peças compradas Renner

