29 de março de 2026

O que um top de academia revela sobre nós, e não sobre quem veste

Coluna publicada Jornal o Vale em 28 março 2026

Leia a coluna completa

 

O que um top de academia revela sobre nós (e não sobre quem veste)

                Nesta semana, uma situação ocorrida em uma academia de São José dos Campos ganhou grande repercussão nas redes sociais – e não foi por acaso. Uma mulher relatou ter sido abordada pela equipe do local e orientada a trocar ou cobrir o top que usava durante o treino, para “segurança dela”, pois no local havia “homens casados”.

A peça, da marca Track & Field, não apresentava transparência, excesso de decote ou qualquer característica considerada, à primeira vista, inadequada para o ambiente fitness. Ainda assim, foi alvo de questionamento.

O episódio rapidamente gerou indignação, debates e diferentes versões. Enquanto a academia chegou a se posicionar publicamente, pedindo desculpas, a própria cliente afirmou que a situação não havia sido resolvida da forma como foi divulgada. Mas, mais do que discutir quem está certo ou errado, essa situação nos convida a uma reflexão mais profunda, especialmente sob o olhar da consultoria de imagem.

Talvez o ponto mais importante aqui seja entender que a comunicação da imagem não está apenas na roupa em si, mas no olhar de quem vê. A mesma peça – um top esportivo básico – pode ser interpretada de maneiras completamente diferentes dependendo do repertório, dos valores e das crenças de quem observa – quem já participou de alguma palestra minha vai se lembrar que sempre trago essa questão, o impacto dos nossos vieses inconscientes em nossos julgamentos.

Na teoria da imagem pessoal, falamos muito sobre intenção versus percepção. A intenção daquela mulher era clara: vestir-se adequadamente para um treino, com conforto, sustentação e funcionalidade. A percepção, no entanto, foi outra para quem a abordou. E é nesse desencontro que nascem as polêmicas.

Existe uma linha tênue – e muitas vezes invisível – entre o que é considerado apropriado e o que é visto como inadequado. E essa linha não é universal. Ela é cultural, social e, principalmente, subjetiva.

Mas quando essa subjetividade recai de forma mais intensa sobre o corpo feminino, precisamos parar e observar com mais atenção.

Historicamente, o corpo da mulher sempre foi mais vigiado, mais regulado e mais interpretado. Mesmo em ambientes onde a funcionalidade deveria prevalecer – como uma academia – ainda vemos julgamentos baseados em códigos que nem sempre são explícitos, mas que estão profundamente enraizados.

E é aqui que entra um ponto importante da consultoria de imagem: não se trata apenas de “o que vestir”, mas de entender o contexto, os códigos daquele ambiente e, principalmente, os riscos de interpretação.

Isso não significa limitar ou censurar escolhas. Muito pelo contrário. Significa ampliar a consciência.

Porque até mesmo o “básico” ou o “neutro” comunicam algo.

Um top neutro, uma legging preta, um conjunto aparentemente simples – tudo isso transmite mensagens. Pode comunicar praticidade, autoconfiança, liberdade, mas também pode ser interpretado, por alguns, através de filtros mais conservadores ou até enviesados.

E então surge a pergunta inevitável: devemos nos adaptar a todos os olhares?

A resposta não é simples.

Como consultora, acredito que a imagem é uma ferramenta estratégica. E estratégia envolve escolhas conscientes. Saber que você pode ser interpretada não significa que você deve abrir mão de quem você é – mas te dá poder para decidir quando, como e onde sustentar essa escolha.

Ao mesmo tempo, também é essencial trazer responsabilidade para o outro lado: o olhar.

Não podemos normalizar a vigilância constante sobre o corpo feminino como se fosse apenas uma questão de “adequação”. Muitas vezes, o que está em jogo não é a roupa – é o julgamento.

Esse episódio pra mim, não é apenas sobre um top.

É sobre como ainda lemos o corpo da mulher antes de ouvir sua intenção. É sobre como ambientes que deveriam ser seguros e acolhedores podem, ainda que de forma sutil, reforçar padrões de controle. E é sobre como a imagem, apesar de ser uma ferramenta individual, ainda é atravessada por construções coletivas.

Talvez o maior aprendizado aqui seja o equilíbrio entre entender que a sua imagem comunica e não permitir que ela seja constantemente policiada. Entre ter consciência e não viver em função da aprovação. E como todo equilíbrio, é difícil de se alcançar.

Por fim, é preciso ter em mente que a imagem não deveria ser um lugar de restrição e sim de expressão, de personalidade e de respeito.

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